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Em entrevista à Folha, o economista Gustavo Franco fala sobre seu novo livro, “Lições Amargas: Uma História Provisória da Atualidade”, que ele define como uma reflexão de quem está cansado das frustrações dos últimos anos, mas acredita que o aprendizado com a pandemia pode acelerar mudanças que levem o país às melhores práticas internacionais na área econômica.

Como escolher o momento para publicar uma história da atualidade que, como diz o subtítulo do livro, é uma história ainda provisória? Como foi a escolha do formato do livro?

Em geral, a gente escreve livros sobre fatos terminados. Mas se for assim nunca vamos escrever sobre temas da atualidade e, portanto, vamos navegar sem o auxílio dos mapas que esses esforços oferecem. É preciso um esforço muito grande para tirar da provisoriedade daquele momento alguma coisa que vai ser duradoura e permanente.

Eu queria fazer um livro que tivesse o tom e a abordagem que eu utilizo nos meus artigos de jornal. É um tom diferente do meu último livro, “A Moeda e a Lei”, que é caracteristicamente acadêmico, um livro de historiador. Esse novo é como se fosse um longo artigo de jornal. Procurei essa escrita mais fácil, mais gostosa de ler, como já tinha feito no passado.

O livro fala em lições amargas, mas, no geral, traz uma visão otimista sobre o momento.

O tom do texto é todo ele positivo. Agora, ele vem de uma reflexão de quem está cansado das frustrações dos últimos anos, das reformas que não acontecem e de um sistema político que não é capaz de entregar uma economia que funcione para as pessoas. Isso é frustrante sim, e a pandemia pode ter criado esse sentimento de amargura com relação ao que se passou, mas que pode ser muito positivo para fazer as coisas acontecerem mais rápido agora. Talvez. Tomara.

A pandemia pode fazer com que as coisas aconteçam mais rápido ou continuaremos com aquilo que o senhor classifica como um “aperfeiçoamento macunaímico sobre o teorema de Lampedusa [autor de ‘O Leopardo‘]”?

Curiosamente houve debate sobre algumas reformas ao longo da pandemia. Não foi um assunto que ficou paralisado. Mudou o olhar. Eu gosto da ideia de que, se a gente tivesse feito reformas antes, com mais vigor, mais velocidade, teríamos começado melhor a pandemia. É outra maneira de dizer que estamos demorando muito. Elas refletem toda nossa ansiedade pelo progresso. É um sentimento generalizado que a pandemia só fez agudizar.

Você faz um paralelo entre o Fausto de Goethe e a relação Paulo Guedes/Bolsonaro ao falar dessas frutrações.

Muitas pessoas gostariam que Paulo Guedes, tendo influência sobre Jair Bolsonaro, conseguisse que ele fizesse algumas reformas liberais, mas ninguém tinha muita ilusão de até onde isso poderia ir. Aprendemos o que já sabíamos, que o presidente não é o Paulo Guedes e que é limitada a ambição de reformas liberais desse governo.

Neste momento em que o livro está saindo, estamos muito mais preocupados com retrocessos do que com os avanços. A própria permanência do ministro hoje em dia é vista muito mais como algo que previne retrocessos do que assegura avanços.

Considerando todas as obras e pesquisas citadas que falam sobre loucura, insensatez, estupidez e cretinice, qual desses conceitos o senhor usaria para classificar o atual governo?

Será um julgamento do leitor e um julgamento do eleitor.

No cenário político atual, com as perspectivas que temos para 2022, o senhor vê espaço para um candidato com agenda liberal?

A pandemia não serviu para resolver essas polêmicas anteriores sobre tamanho do governo, papel do Estado, intervencionismo versus mercado. Todas essas polêmicas continuam, talvez um pouco alteradas. Teve muito viés de confirmação, mas as dúvidas permanecem. Não creio que na próxima eleição vai haver uma vitória clara de um lado sobre o outro.

Pode ser que a pauta econômica fique fora das discussões?

Não fica fora. Como ela vai aparecer é ainda um mistério para mim. Na última eleição foi surpreendente que o ponto de vista liberal tenha sido tão importante no debate sobre a economia. É possível que essa discussão se repita na próxima eleição, porque foi meio frustrante o que se passou de 2018 para cá. Não tivemos as reformas liberais que todos os candidatos, tirando os de esquerda, disseram em 2018 que iam fazer. É uma pauta que ficou encalhada.


Raio-X

Gustavo Franco, 65
​Mestre em Economia pela PUC-Rio e Ph.D pela Universidade de Harvard. É ex-presidente do Banco Central e sócio-fundador da Rio Bravo Investimentos. Participou da equipe que formulou o Plano Real. Autor e organizador de 15 livros sobre economia e temas com Machado de Assis, Shakespeare e Fernando Pessoa. Filiou-se em 1989 ao PSDB, partido que trocou pelo Novo em 2017.