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As empresas da Bolsa de Valores brasileira apresentaram melhores resultados no primeiro trimestre de 2021 do que antes da pandemia de coronavírus.

De acordo com cálculo da Economatica, 262 empresas listadas na B3 somaram um lucro líquido de R$ 83,3 bilhões no período. Este é o maior valor para um primeiro trimestre desde 2018, quando as mesmas companhias tiveram lucro líquido de R$ 90,7 bilhões em termos ajustados pelo IPCA, índice oficial de inflação no país.

A pandemia derrubou o resultado das companhias no primeiro trimestre do ano passado –muitas empresas foram afetadas antes mesmo do coronavírus chegar ao Brasil, no final de fevereiro, especialmente as exportadoras. No período, o grupo analisado pela Economatica somou prejuízo de R$ 65,5 bilhões em termos reais.

Já neste ano, as empresas foram beneficiadas pela retomada da economia global em uma combinação de juros baixos, injeção de liquidez por governos e bancos centrais e alta do dólar e das commodities, o que levou a lucros recordes de algumas companhias.

Segundo Gustavo Akamine, analista da Constância Investimentos, no caso de empresas exportadoras de commodities a receita cresceu cerca de 50% na média em relação ao primeiro trimestre de 2020, impulsionada também pela falta de estoques e pela retomada econômica.

Levando em conta as empresas do Ibovespa —principal índice acionário do país— como um todo, o aumento na receita foi menos expressivo: de 10% a 15% sobre o mesmo período do ano passado.

“Os setores de mineração e siderurgia, papel e celulose e petróleo tiveram resultados muito fortes, dado o desabastecimento de inúmeros insumos pela paralisação no início a pandemia”, diz Akamine.

A Vale, empresa mais valiosa da América Latina, teve lucro recorde de R$ 30,5 bilhões no primeiro trimestre deste ano. O Santander também bateu recorde, com lucro de R$ 4,012 bilhões nos primeiros meses de 2021.

Em termos ajustados pelo IPCA, o lucro da Vale é o segundo maior para um primeiro trimestre da história das empresas brasileiras de capital aberto, segundo cálculos da Economatica. A mineradora perde apenas para a Oi, que, em valores presentes, lucrou R$ 35 bilhões no início de 2018, com a redução da dívida após aprovação do plano de recuperação judicial da companhia.

Segundo João Leal, economista da Rio Bravo Investimentos, o primeiro trimestre foi impulsionado por dois fatores: uma economia muito mais forte e resiliente do que o esperado, especialmente no consumo, e a retomada econômica global, que também favoreceu os preços das commodities, beneficiando grande parte das empresas exportadoras.

“No primeiro trimestre ainda estávamos em um cenário de juro muito baixo, commodities em alta, economia externa em recuperação e economia doméstica resiliente”, diz Leal.

“No começo de 2021 esperávamos uma recessão técnica no primeiro semestre, o que não deve mais acontecer”, afirma o economista.

Bancos e o governo têm ampliado as projeções de crescimento para este ano. Segundo o último boletim Focus do Banco Central, o PIB (Produto Interno Bruto) do Brasil deve crescer 3,45% neste ano.

“As empresas também devem se favorecer pela reedição das medidas fiscais que darão um impulso para o consumo, como o auxílio emergencial, o BEm [programa de corte de jornada e salário ou suspensão de contratos de trabalho] e antecipação do 13º do INSS”, diz Leal.

Caso o ritmo se mantenha, 2021 pode ser um ano de vários recordes nos lucros anuais, segundo analistas, mas o cenário ainda é incerto.

“O começo do ano foi uma foto muito boa para commodities, mas não necessariamente vai se repetir. Depende do exterior, se China e Estados Unidos continuam a se recuperar, e se o dólar segue alto”, diz Akamine.

Outro fator a ser levado em conta é o ritmo de imunização da população contra a Covid-19.

“Espera-se que, com a vacinação, a atividade no segundo semestre acelere, o que deve melhorar os resultados de empresas de consumo interno e bancos”, diz Jardel Nogueira Oliveira Lago, economista da Valor Investimentos.

Até o momento, o maior lucro anual que uma empresa obteve no Brasil, em termos reais, foram os R$ 64,7 bilhões que a Petrobras registrou em 2008 –naquele ano, o barril do petróleo chegou a passar dos US$ 100; hoje, está a US$ 66. A Vale tem a segunda posição, com lucro de R$ 63 bilhões em 2011. Ambas as companhias se revezam nas primeiras 18 posições do ranking dos maiores resultados anuais feito pela Economatica.

Analisando o Ibovespa, o primeiro trimestre de 2021 foi o quarto melhor de todos os trimestres dos últimos dez anos, em termos reais.

Neste levantamento, feito pela Quantum Axis, foram consideradas 28 empresas que estiveram presentes no índice em todos os trimestres desde 2011.

Nos primeiros três meses deste ano, elas somaram um lucro líquido de R$ 73,6 bilhões. O melhor resultado é o do último trimestre de 2020, que, em termos reais calculados por Leal, somou R$ 172 bilhões.

Em seguida, estão o primeiro e o segundo trimestres de 2011, com R$ 87,5 bilhões e R$ 88 bilhões, e o seguido do segundo trimestre de 2019, com R$ 82 bilhões.

Um outro levantamento da Economatica, agora com 307 empresas de capital aberto no Brasil –nem todas com dados para os últimos dez anos– mostra que o lucro delas no primeiro trimestre de 2021 é de R$ 90,2 bilhões, contra prejuízo de R$ 62,9 bilhões no mesmo período de 2020.

Depois da Vale, o segundo maior lucro do período é do Bradesco, com R$ 6,15 bilhões, seguido de Itaú Unibanco, com R$ 5,41 bilhões.

A Oi, ainda em recuperação judicial, tem o maior prejuízo do período, de R$ 3,50 bilhões. A Azul registra o segundo maior, com R$ 2,78 bilhões. Ambas tiveram as vendas impactadas pela pandemia, mas conseguiram reduzir o rombo em relação a 2020.

Junto ao setor de veículos e peças, os setores de transportes e serviços e telecomunicações foram os únicos com perdas no período.

O setor de transportes e serviços é o que tem a maior queda percentual de vendas (12,18%), seguido por telecomunicações (11,84%), locadoras de imóveis (10,02%) e educação (9,10%).

Já o setor com maior volume de vendas é o de alimentos e bebidas, com R$ 134,8 bilhões, valor 30,88% superior ao de 2020.

Apesar dos resultados favoráveis, a economia brasileira como um todo ainda não apresenta o mesmo nível de recuperação.

“O fato de essas empresas estarem listadas em Bolsa já as torna vencedoras, com papel de liderança no setor em que atuam e não necessariamente refletem a economia como um todo”, afirma Akamine.

Desde o final de 2020, a atividade econômica vem desacelerando.

“Após uma recuperação ao longo do segundo semestre do ano passado, a piora da pandemia deve impactar a atividade nessa primeira metade de 2021. Em contrapartida, o avanço da vacinação em massa deve permitir uma retomada no semestre seguinte”, diz relatório da XP.

Segundo a corretora, apesar do cenário macroeconômico desafiador, os lucros devem seguir em forte recuperação. A aposta é no avanço das vacinações e na reabertura econômica.