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Para Investidores e Empreendedores

O Volkswagen Fox saiu de linha após 18 anos e com ele se despede o conceito de carro de baixo custo para famílias. O modelo que veio para substituir o Gol –o que jamais ocorreu– pertenceu à geração de carros que fez a indústria aliar volume e rentabilidade por 10 anos seguidos.

Enquanto o Gol surgiu no início dos anos 1980 – sendo anterior ao conceito de carro popular criado em 1990–, o Fox veio em 2003. A produção nacional foi concentrada em São José dos Pinhais (PR).

A versão mais simples custava R$ 21 mil, tinha duas portas e motor flex com 72 cv. Foi o primeiro carro “mil” a já nascer apto a consumir etanol e gasolina.

Em valores corrigidos pelo IPCA, o preço do Fox em 2003 equivale hoje a R$ 56 mil.

O mote da campanha de lançamento era “compacto para quem vê, gigante para quem anda”. A vantagem estava no espaço maior do que o oferecido pelos carros 1.0 criados após a redução do IPI (Imposto sobre Produtos Industrializados) no governo Collor.

O pioneiro Fiat Uno Mille também era espaçoso, mas, da mesma forma que o Gol, seu projeto remontava ao início dos anos 1980.

A estratégia de “mais espaço por menos preço” seria repetida pelo Renault Logan em 2007, mas há tempos esse modelo deixou de ser um veículo de baixo custo. O sedã e o Sandero, sua versão hatch, não custam menos de R$ 70 mil atualmente.

O Fox também teve família, formada por SpaceFox e os aventureiros CrossFox e SpaceCross. Por terem origem popular, os altos preços dessas versões sempre apareciam em discussões sobre custo e lucro no Brasil.

Na época em que o Fox foi lançado, os automóveis compactos já podiam trazer airbags frontais e freios com ABS (sistema que evita o travamento das rodas em frenagens de emergência). Os itens que hoje são obrigatórios eram vendidos como opcionais e associados a versões mais luxuosas.

A necessidade de tornar os carros mais seguros e menos poluentes foi o primeiro passo rumo à extinção dos populares zero-quilômetro –e a implementação dessas normas coincidiu com o fim do ciclo de crescimento, em 2014. Seguiu-se então uma crise econômica emendada à crise sanitária.

“O carro popular está fadado a desaparecer até pelo regulatório, temos a redução das emissões e os carros mais acessíveis hoje são altamente tecnológicos”, diz Luiz Carlos Moraes, presidente da Anfavea (associação das montadoras). “O carro ‘pé-de-boi’ não existe mais, até por questão de segurança, e acho que está certo, a gente precisa evoluir.”

Com a alta nos custos de produção, a queda nas vendas e a perda da rentabilidade, o carro popular também se tornou desinteressante para as montadoras. Com os efeitos da pandemia, que geraram gargalos de produção, as marcas investem em modelos mais caros e ainda assim não conseguem atender à demanda, apesar dos repasses nos preços.

De acordo com Cassio Pagliarini, sócio da consultoria Bright, os reajustes nas tabelas dos carros ao longo de 2020 e de 2021 (até agosto) acumulam 18% de alta acima da inflação no mesmo período.

O mercado também mudou. O Fox de R$ 21 mil vendido em 2003 não trazia ar-condicionado, direção hidráulica ou acionamento elétrico de vidros e travas. Todos esses itens estão presentes no mais simplório dos Volkswagen Gol 1.0 vendidos hoje, por a partir de R$ 65,6 mil.

Os últimos Fox à venda têm motor 1.6 flex (103 cv) e preço inicial sugerido de R$ 61,7 mil. Além dos equipamentos disponíveis no Gol, traz controle de velocidade de cruzeiro, retrovisores com regulagem elétrica e volante com ajustes de altura e de profundidade.

Hoje o conceito de carro popular tem no Renault Kwid o representante mais em conta. É o único modelo zero-quilômetro cujo preço inicial de tabela permanece abaixo de R$ 50 mil.

A versão Life (R$ 48,8 mil) tem quatro airbags, mas não traz ar-condicionado nem direção com assistência. Seu principal problema é o tamanho, com pouco espaço no banco traseiro.

Carro zero-quilômetro com preço baixo e uma cabine confortável o suficiente para transportar quatro adultos é artigo em extinção em uma indústria que busca rentabilidade.